segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

CARNAVAL: AFINAL, A MULTIDÃO SE JUNTA PARA QUÊ?


Já me disseram que meu método de pesquisa filosófico-antropológica acabaria me matando um dia. Enquanto esse dia não chega, eu continuo tentando entender por que as pessoas fazem o que elas fazem, pois, convenhamos, muita gente faz coisas incompreensíveis, porém antes de julgá-las o melhor a fazer é tentar entendê-las. E, se possível, fazer o que elas fazem para entendê-las intimamente.

Não quero dar um de "Freud da Humanidade" e colocar todos no divã, mas fazer algo só porque os outros fazem é ridículo. Temos que fazer algo que tenha um sentido para nós. Nem que o sentido seja criado a posteriore, mas então que pelo menos haja uma intenção.

Este ano resolvi pular Carnaval com a intensão de descobrir o que as pessoas comemoram, afinal sei muito bem no país em que vivo e tirando os recursos naturais o Brasil tem pouco a celebrar.

Após essa rápida introdução, passo agora para o relato da minha experiência durante o Carnaval carioca 2012. Comecemos pelo final, domingo 26/02/2012 (o resto no momento é irrelevante). Depois de sair do trabalho às 7h da manhã, passei em casa e fui para o centro da cidade, onde estava tocando um dos blocos mais populares o MONOBLOCO.

Inicialmente pensei que as pessoas gostassem de Carnaval pela questão sexual envolvida. As pessoas bebem, se vestem diferente, dançam, encontram um parceiro e transam. Basicamente um comportamento primitivo e animalesco da dança do acasalamento. Mas estando no meio da coisa toda, deu pra ver que há outros elemtos em jogo. Mesmo que a intenção orginal de todos (seja ela consciente ou não) envolvidos seja encontrar um parceiro sexual para a satisfação do desejo, muitos mascaram essa vontade alegando que sua única intenção é a diversão. Pois bem, a diversão a que se referem não é o prazer hedonista do álcool, nem o sexo “fácil”. Já que álcool em abundância pode ser ingerido em qualquer época do ano, nos mais variados locais.

Acho que o que faz as pessoa se reunirem, em primeiro lugar vem a vontade de fazer parte algo muito maior do que si mesmo. Um desejo de retorno ao estado primordial de anulação do seu eu. Literalmente querem se perder na multidão. É como ter uma identidade superior e abrangente, se assemelha a fazer parte de um país, ou time de futebol e ir ao estádio e depois, quando falam em brasileiros, flamenguistas, corinthianos, as pessoas sentem-se parte desse todo, que é na verdade um grande EU COLETIVO, formado por diversas singularidades anônimas.

Se viajar no metrô sentido Zona Norte do Rio de Janeiro me fez descobrir como é que uma pasta de dente se sente ao sair do tubo quando ele é comprimido, participar do MONOBLOCO me fez lembrar como era ser um espermatozoide 28 anos atrás. Obviamente eu não tive uma recordação genuina, mas as condições reproduzidas me fizeram sentir como se eu estivesse em uma reencenação do momento da concepção.

Seguir o MONOBLOCO foi uma mistura de sauna mista ao ar livre com drenagem linfática intensa. Um bando de indivíduos, meninos, meninas e o terceiro sexo, todos juntos comprimidos em um espaço apertado sendo empurrados como em uma onda incontrolável, suando sob um calor de 40 graus ao sol do meio-dia seguindo um carrinho de som tocando músicas na maior parte do tempo inaudíveis. Depois de uma hora tentando sobreviver enquanto desenvolvia alguns pensamentos eu desisti. E esse foi o tempo que levei para andar cerda de dois quarteirões apenas.

Me chamem de chato, mas eu não chamaria a experiência de diversão. A maior parte do tempo foi assustador. Se alguém caísse, certamente seria pisoteado, se houvesse briga seria espancado, se houvesse um ataque terrorista... enfim. Parece perigosa a ideia de botar tanta gente junta. Mesmo que a princípio todos ali envolvidos saibam previamente o que irá acontecer e tem a intenção de se divertir, o resultado nem sempre é condizente com o esperado. Podem achar que não me diverti porque estava sozinho, mas se estivesse com amigos ou namorada, não demoraria muito a perdê-los no meio do mar de gente. Eu não conheci ninguém legal, não beijei ninguém e mal consegui tomar uma cerveja sem me babar todo. Sem falar na chuva de cerveja que ocorria em pancadas esporádicas ao londo de todo o percurso. Eu mal ouvi as músicas que eles tocaram. Isso que eu cheguei bem perto do carro de som, o mais perto possível. Tudo isso a troco de que? De pular Carnaval no Rio. No meio de toda aquela gente, pular se transforma em é uma questão de sobrevivência.

Pareceria apenas insano, ou incompreensível que pessoas viagem quilometros de distância, façam reservas em hotéis, pousadas e albergues, durmam mal se alimente precariamente, gastem um monte de dinheiro, isso se não houvesse uma explicação.



A única conclusão que chego é que pessoas gostam de aglomerações. Seja em Tahrir Square durante a primavera árabe por questões políticas, seja nos jogos de futebol pelo amor ao esporte, seja durante os shows do Rock in Rio pela admiração a arte, seja lá onde for, as pessoas gostam de ficar se espremendo no meio de multidões por motivos distintos. Todos juntos suando e se roçando com uma finalidade em comum. Como o Brasil é um país feliz e sem problemas, as pessoas apenas se juntam para transpirar juntas. No Carnaval a multidão se junta para nada, se junta para se juntar. Se aqui fosse outro lugar, as pessoas continuariam a se juntar, mas por motivos diferentes.

Isso pode não ser nenhuma grande descoberta, mas o fato político mais marcante que isso demonstra é que as pessoas no Brasil só se reunem para fazer festa. Pois para juntar mil pessoas para protestar contra qualquer uma das muitas coisas erradas nesse país demanda um grande trabalho de persuasão. As pessoas acham perda de tempo lutar pelos seus direitos. Mas para se “divertir” todos sempre parecem ter tempo o suficiente para gastar.


Poderia me ater a falar das “maravilhas” Carnaval, mas este papel eu deixo reservado para a grande mídia, e poderia falar da alienação do Carnaval, mas este é o discurso dos esquerdistas intelectualódes.

Então fica aqui a minha singela contribuição, vamos continuar celebrando a cada Fevereiro e feriado como idiotas, pois está tudo bem. O país não tem problema algum é tudo festa. Vamos fazer do Brasil um país internacionalmente conhecido por sua alegria e tolerância. Pois aqui, para as coisas serem consideradas ruins elas têm que estar pior, muito pior do que deveria ser o tolerável.

A minha maior insatisfação com o Carnaval é essa: pra juntar meio milhão de pessoas sem motivo nenhum, é fácil, para juntar esse mesmo número de pessoas por alguma razão realmente importante é quase impossível. Se isso faz sentido para você me explique, pois pra mim não faz o menor sentido. E viva o Brasil: o país do nonsense! E ano que vem tem mais Carnaval. Só não esqueçam esse é um ano de eleições...

2 comentários:

Vinicius Rodrigues disse...

Velho, muito bom este teu texto. Não sei se já havia comentado isso contigo, pois li ele já faz uns dias. Resolvi passar aqui de novo pra ver se havia postagem nova - saudade do amigo, na verdade, dos nossos papos e das nossas cevas! Grande abraço!

Pamela Morais disse...

Texto muito interessante. Lendo ele atualmente, em Outubro de 2013, vou em seu histórico procurar seu atual ponto de vista das manifestações de Junho.