quarta-feira, 9 de junho de 2010

DELEUZE, O FILÓSOFO DA DIFERENÇA

Há muito tempo comecei a escrever esse blog, principalmente para servir como instrumento auxiliar nas minhas aulas de Filosofia na escola particular onde leciono. Mas nunca encontrei tempo, inspiração, coragem, ou um pouco de ambos para escrever como gostaria. Confesso que em parte era por não saber o que gostaria de dizer ou por não querer dizer algo que me comprometesse profissionalmente. Mas hoje à noite, durante uma palestra de Roberto Machado sobre o pensamento de Deleuze, me senti convidado a escrever. Já atuo a mais de um ano nesta escola e sinto que posso abordar nesta página os assuntos sobre os quais eu penso sem levar a uma deterioração da minha carreira como professor. Pretendo a partir de agora publicar semanalmente fazendo uma cartografia do meu próprio pensamento intelectual publicando as principais descobertas e pensamentos produzidos no campo da Filosofia.
Roberto Machado disse que o seu interesse no evento desta noite era chamar atenção para o processo de criação do pensamento de Gilles Deleuze (1925-1995). Em sua abordagem ele tentou expor principalmente qual é o procedimento utilizado por Deleuze para pensar. Um dos pontos mais destacados por Machado é que a melhor maneira de definir o pensamento de Deleuze é como uma Filosofia da diferença.
Em 1968, Deleuze apresenta como tese de doutoramento Diferença e Repetição (Différence et répétition), orientado por Gandillac, na qual critica o conhecimento via representação mental e a ciência derivada desta forma clássica lógica e representativa. Machado considera que este é o principal trabalho do autor francês, estando já nele presentes todas as suas principais teses. De acordo com o pensamento de Deleuze a Filosofia não está num nível mais elevado que os outros saberes. A Filosofia não é superior hierarquicamente às outras ciências, ou a arte. Ela também não é uma meta linguagem que se destina apenas a legitimar ou comentar a produção realizada em outras áreas. Portanto, Filosofia não é um falar superior mais elevado que se refere a saberes inferiores. O palestrante, em sua posição pessoal, segue o pensamento de Foucault na arqueologia do saber e considera que a Filosofia Moderna é inaugura com o pensamento de Kant e não com Descartes como tradicionalmente se considera.
A questão do trágico (tema que abordei em minha dissertação de mestrado especificamente dentro do pensamento de Nietzsche) é um problema que aparece a partir da noção de sublime. A condição de possibilidade para que o trágico tivesse nascido é o pensamento de Kant. O trágico é um conceito moderno que só se explica pela concepção estética kantiana. É com a filosofia de Kant que aparece a diferença entre o empírico e o transcendental. Deleuze é um filósofo em certa medida muito kantiano. Por outro lado ele se difere, pois sua Filosofia não é uma continuidade de um discurso sobre algo. Para Deleuze filósofos, cientistas e artistas são todos pensadores. Mas pensamento não é exclusividade da Filosofia. Filosofia em Deleuze é criação de pensamento. A ferramenta utilizada pelo filósofo para criar pensamento é o conceito. Uma palavra não é um conceito. Uma mesma palavra pode esconder conceitos diferentes. Substância, por exemplo, é um conceito aristotélico, assim como o conceito de duração adquire nova conotação no pensamento de Bergson. Um exemplo novo de conceito utilizado por Deleuze é o conceito de persepto. A ciência produz funções. A arte produz percepções. A arte é algo que fica, que tem concretude. A percepção se esvaece. A arte tem algo que fica. Ela é eterna enquanto dura. Tem eternidade presente. A arte também tem uma relação com o afeto que não compreendi bem. Roberto Machado para explicar o que estava dizendo utilizou como exemplo conto A estepe de Tchekhov, além deste exemplo falou sobre Marcel Proust (1871-1922) e citou alguns acontecimentos dos volumes de Em busca do tempo perdido (No caminho de Swann (I), Sodoma e Gomorra (IV), A prisioneira (V)). Como não li estas obras não compreendia as relações estabelecidas. Destaque para a frase: “Quem não leu Proust está morto!” Outros comentários foram relacionados a teoria estética presente na obra, ao desenvolvimento da questão do homossexualismo e ao amor e a necessidade do ciúme para que ele exista. “O amor ama para ter ciúme.”
A definição de Filosofia como criação de conceitos aparece no livro “O que é Filosofia?”. Deleuze utiliza pensamentos não filosóficos para se nutrir. Ele cria pensamento com um instrumento específico o conceito. Há interferências entre os mesmo temas nas diferentes áreas do saber. Os outros sabres não precisam da filosofia para se legitimarem. A Filosofia não tem nada a ensinar a eles. Cada saber procura desenvolver com os seus próprios meios um problema semelhante. Em oposição a uma história da filosofia, Deleuze faz uma geografia. Ele procura realizar a constituição de espaços.
Os grandes filósofos criam os próprios conceitos. Os conceitos não são desvelados, são criados. O filósofo faz nascer algo novo. Essa é uma noção que Deleuze se apropriou de Nietzsche. Que conceitos Deleuze criou?
Identidade e Diferença da Filosofia em relação aos outros saberes não são conceitos criados por ele, mas trabalhados com contribuição.
A filosofia de Deleuze é um sistema de relações conceituais. Nietzsche mesmo não sendo um autor sistemático cria um sistema de relações conceituais. Toda filosofia é a criação de um sistema de relações conceituais. Deleuze não é um filólogo toda vez que se utiliza o pensamento de outro autor ele está interessado em saber como é que esse autor produzia os seus próprios pensamentos. Ele não queria ser um historiador da filosofia. Suas três maiores influências são Nietzsche, Espinosa e Bergson. Deleuze roubando conceitos dos outros filósofos faz a sua própria filosofia. Deleuze é um filósofo da imanência, não da transcendência. De Nietzsche ele se a apropria dos conceitos de vontade de potência e de eterno retorno enquanto que de Bergson ele pega os conceitos de virtual e atual. Ele tira ouro do nariz de outros filósofos. Ele procura a heterogênese, a gênese da diferença a condição genética. A filosofia de Deleuze é um sistema. Alguns conceitos são oriundos de outras filosofias. Outros são suscitados pelas outros saberes como cinema, literatura e pintura.
Em Hegel o conceito de história tem um papel fundamental. Há no pensamento hegeliano uma tese sobre o progresso da história das ideias. A história do pensamento seria o itinerário em direção a verdade. O posterior é sempre superior em seu pensamento. Em Hegel Moralidade surgiu depois, com o cristianismo, portanto é superior a Eticidade que entre os gregos já existia. Hegel não tinha nostalgia da Grécia.
Outra chave de leitura apresentada por Roberto Machado para adentrar o pensamento de Deleuze é compreendê-lo como uma diretor de teatro do pensamento. Deleuze diferente de Hegel e Foucault não é que ele não soubesse bem os outros autores da filosofia. Ele não queria saber. Ele usa o conceito dos outros para alimentar o seu próprio pensamento. De acordo com Deleuze, por exemplo, as três maiores questões em Foucault são: o poder, o saber e o sujeito. Ele diz isso porque esta conclusão serve aos seus propósitos. O conceito de representação é muito importante também, enquanto que para Descartes conhecer é representar em Kant pensamento não é conhecimento. Kant desferiu um golpe na metafísica, mas ela sobreviveu. Para Kant é preciso fazer uma síntese entre pensamento e representação, criar um espaço ideal onde se coloca alguns pesadores e não se colocam outros. Nesse espaço é preciso criar o novo. Criar um novo pensamento filosófico. Representação para Deleuze é o privilégio da identidade. Nesse sentido Deleuze é kantiano porque Kant criou a diferença transcendental. Representar é reduzir a diferença para criar a singularidade. No cinema de Godar que influenciou o pensamento de Deleuze aparecem imagem com som diferente. Não há identidade entre som e imagem. Fala do que não se vê e se vê uma imagem que não fala. Enfim para compreender o pensamento de Deleuze é preciso falar contradições que possuem sentido. A arte da Filosofia é ver o invisível. A música deve ouvir o inaudível. Devemos para ser inovadores dizer o indizível e pensar o impensável.

Deleuze como estabelece como critério entre o que tem valor e o que não tem em sua filosofia a questão da diferença. Criação de espaços. A paisagem vê. Cezane, por exemplo, ele inaugura a modernidade na pintura. Ele pintava a mesma paisagem sempre e fez isso a vida toda. Pois a paisagem não era a mesma. Deleuze nesse movimento opondo os conceitos de Ética e Moral é contra a segunda, pois era contra a ideia de julgamento. Deleuze era critico da ideia de que a vida pode ser julgada. Seria necessário estar fora da vida para fazermos isso. Enquanto que a moral é um sistema de juízos pré-estabelecidos a ética tem sentimentos, afetos, temporalidade que fazem da pessoa um duplo e não um idêntico. Um duplo sem semelhança.
O pensamento sem imagem é o pensamento da diferença.
Exemplo de pensadores pluralista: Nietzsche. Nietzsche é um pensador da diferença e da singularidade.
Imagem sem pensamento é a representação.
Exemplo de pensadores dogmáticos: Hegel. Hegel é um pensador da representação e da universalidade.
Simulacro é uma palavra utilizada para pensar a diferença quando Deleuze fala em termos platônicos ele usa essa palavra. A palavra pode mudar mas o conceito continua.
Fazer filosofia é passear com um saco. É botar dentro o que serve e deixar fora o que não serve. Além de uma geografia do pensamento. Deleuze faz um teatro filosófico. Onde ele coloca como atores todos os filósofos que quer que façam parte do seu elenco. Um dramaturgo que escreve as falas e dirige os pensadores. Ele diz através deles o que ele quer dizer. Com esse movimento ele traz o pensamento do outro para o seu próprio teatro. É preciso ensaiar muito para atuar como um ator do próprio pensamento. Foucault escreve muito bem sobre Deleuze em um texto justamente chamado de Teatrum Filosóficum. Deleuze é um filósofo da torção. Ele diz que o eterno retorno é uma linha reta, enquanto Nietzsche diz que é um circulo. Nietzsche não faz diferença entre força e vontade de potência. Na interpretação de Deleuze força é diferente da vontade de potência. Qualquer livro de Deleuze é uma nova interpretação. Seu estilo literário é o discurso indireto livre. O discurso de Deleuze está entre Platão e Nietzsche, seguindo Nietzsche em oposição a Platão.

Por enquanto foi isso que entendi do pensamento de Deleuze e essas foram as anotações que fiz durante a fala de Roberto Machado no Unisinos na sala 1G119 no dia 09 de Junho de 2010 às 19h. E que este texto sirva como expresssão de uma tentativa proustiana de ir em busca do tempo perdido.

Quem quiser saber mais pode acessar O Abecedário de Gilles Deleuze no site:

2 comentários:

ana rita disse...

Foi bom ler seu texto, Felipe. Primeiro pq andava aqui pensando sobre o conceito de representação na ciência e algo foi esclarecido para que eu continue, e segundo pq como vc me sinto instigada a ousar. Estudo as relações entre o riso carnavalizado e a educação. Deleuze, neste momento parece ser uma possível chave para criação de novas possibilidades nessa relação. (atovivo@gmail.com)

Aline Hannun disse...

Obrigada, foi bem esclarecedor. Preciso concluir um raciocínio para terminar um trabalho. Achei aqui. Parabéns!