quarta-feira, 10 de maio de 2017

Lula: humano, demasiadamente humano.


Tenho, intencionalmente, me omitido a falar publicamente sobre a política nacional ao longo dos últimos dois anos. Mas resolvi que é hora de interromper meu silêncio e me inserir no debate que toma conta do Brasil.

O depoimento de Lula ao juiz Sérgio Moro tem causado amplas reações no país. O ex-presidente sofre visivelmente uma perseguição da mídia que busca culpabilizá-lo antes da decisão final da justiça.

Lula não é anjo nem demônio. Por mais que a elite branca procure fazer todo esforço possível para desmoraliza-lo, não se pode condenar o ex-presidente antes da hora. Nem tão pouco endeusa-lo, como fazem os petistas. Ele é ser um humano e como qualquer cidadão deve possuir amplo direito a defesa das acusações que tem sofrido.

Alguns de seus feitos sociais inegavelmente foram gloriosos, mas a maneira com que eles foram “construídos” é condenável.

Sem sombra de dúvidas Lula é culpado de alguma coisa. Mas de que? Talvez o seu maior crime seja a incompetência. Se Lula não tem culpa dos crimes cometidos durante seus governos, ele é culpável por se aliar a um grupo de criminosos que o cercava. 

Se ele sabia dos crimes que aconteciam em seu governo ele é cúmplice, se ele não sabia é um ignorante


E o governante máximo do país não pode ser nem uma coisa nem outra, nem conivente, nem incapaz de perceber as atrocidades que acontecem durante seu governo.

Lula se apresenta como um pré-candidato para as próximas eleições. Mas mesmo que Lula não se torne inelegível, ele não merece ser eleito porque durante seu governo inúmeros atos de corrupção, já comprovados pela justiça, foram praticados por seus aliados.

A tendência natural é que aqueles destituídos do poder tendem a querer se vingar daqueles que o perseguiram. E o ex-presidente se reeleito fosse dificilmente fugiria dessa tendência. Um novo governo do PT, portanto, seria um desastre e se tornaria uma caça-as-bruxas. Sem sombra de dúvidas a esquerda não possui uma alternativa viável. Por isso se esforça em depositar suas esperanças em um político que não merece mais credibilidade.

Mas a verdadeira condenação ou absolvição será feita no seu devido tempo, nas urnas em 2018, elas darão o veredito.


O texto acima manifesta a opinião de um proletário branco esclarecido.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

“Bandido bom é bandido morto?”


Quem não pensam assim? Uma minoria dos brasileiros de acordo com o Datafolha.

Houve um tempo em que os estados não eram tolerantes e os criminosos eram executados em praça pública.

Essa semana o caos no sistema penitenciário nacional veio à tona por causa dos massacres nos presídios de Manaus e Boa Vista. Como se o problema já não existisse dede muito antes do Carandiru.

A resposta do presidente foi rápida e pontual.
- Vamos construir mais presídios.

Ou seja, em breve teremos novos palcos para outros massacres. Gostaria que ele tivesse dito.
- Vamos produzir menos criminosos.

Mas o que fazer com o problema da superlotação dos presídios. Mandar matar?

- Presidio não resolve. Manda matar todos eles. Faz picadinho. Não deixa sobrar um – disse um taxista ex-sargento da brigada.

- Tá com pena, então leva eles para casa. Quem não quer um bandido na sala de estar, ao lado da TV, parado feito uma samambaia – falou meu vizinho ogro.   

Se fizessem um plebiscito sobre quem prefere esses bandidos mortos e quem quer eles soltos. Qual você achar que seria o resultado? Aposto que descobriríamos que a maioria da população aprova a morte de criminosos em nome da própria segurança.

Dois fatos são inegáveis:
Primeiro a maioria dos presos é irrecuperável. Depois de uma condenação são poucos os que se regeneram.
Segundo os custos dos presos para o estado é altíssimo. Novas vagas no sistema prisional, por exemplo, custariam em torno de 40 a 50 mil reais por preso, de acordo com a Veja dessa semana. E não é justo que as pessoas honestas paguem essa conta.  

Em uma rápida pesquisa você poderá descobrir que em vários países a pena da morte ainda é praticada.

Mas antes de achar que a pena de morte é a solução, pense bem.

Existe um motivo para que a maioria dos estados democráticos modernos ter abolido a pena de morte. Basta fazer um retrospecto para p
erceber que muitos inocentes seriam mortos injustamente. Como ocorreu com Jesus Cristo, Sócrates, Giordano Bruno e tantos outros caras legais que foram condenados à morte pelo estado em que residiam.

Já que não dá pra matar, que obrigar eles a fazerem trabalhos forçados, ou a volta da escravidão no Brasil.

A solução perfeita parece ser expulsar eles do país. Manda os criminosos para um país bem longe, tipo Austrália. Aliás foi assim que teve início a colonização daquele país, quando o governo britânico, em 1786 determinou o estabelecimento de uma colônia penal em Botany Bay para onde mandava infratores condenados.


Para que essa solução funcione no Brasil só falta achar um território bem grande para onde todos os presos possam ser enviados. Aliás, alguém sabe como anda o processo de colonização da Antártida.

domingo, 7 de dezembro de 2014

ESCREVENDO O LIVRO MEMÓRIAS SEPULTADAS

             As pessoas me pergunta sobre como foi o processo de escrever meu primeiro romance.

             Confesso a vocês que não foi nada fácil.

           Eu sempre quis ser um escritor, era o meu sonho desde a infância. Esse foi um dos motivos que me levaram a estudar Filosofia na universidade e fazer um mestrado sobre Artes em que o tema principal são as tragédias gregas.

            Apesar de sempre ler muito, nunca me sentia bom o bastante para começar a escrever um romance. Sempre achava que precisava me preparar mais para poder contar um boa história. Até que percebi que escrever é como dançar, ou tocar um instrumento musical, você precisa praticar muito até ficar razoavelmente bom naquilo. Para me preparar comecei a escrever com mais regularidade, fiz algumas oficinas literárias, curso de roteiro cinematográfico, conversei com escritores famosos e pesquisei muito sobre o tema que queria escrever. Ainda hoje, não acho que escreva tão bem quanto gostaria. Mas estou satisfeito com o resultado do meu primeiro trabalho.
                                                        
            As primeiras anotações para o livro Memórias Sepultadas começaram a ser feitas em 2004. Mas foi só em  2008 que comecei a levar o projeto a sério. Meu mestrado porém tomou todo meu tempo livre e tive que, mais uma vez, adiar o projeto. Em 2011 parei de lecionar e comecei a me dedicar com exclusividade para finalizar esse romance. Após um ano digitando todas as minhas anotações e escrevendo as partes que faltavam, dei por encerrada a primeira versão da história. Depois, durante mais de dois anos fiquei revisando incessantemente e aprimorando a linguagem do texto. Quando tudo finalmente ficou como eu queria, mandei para a revisão.

            Muita coisa mudou desde o inicio da história. É difícil contar o que, ou entrar em detalhes, sem estragar parte do enredo, portanto, só falarei sobre isso depois que a história já for mais conhecida. O que posso dizer é que uma das minhas personagens favoritas foi excluída na versão final. Esse episódio se passava durante a Guerra do Paraguai e ficou de fora pelo tema e por causa do cenário não serem os mesmo que a história principal. Essa parte virou um conto independente chamo Ana Guerra que ainda não foi publicado e pode servir como base para uma nova narrativa longa (ainda não decidi).
            O ramo da arte é ardiloso. Você quer trabalhar nele, mas precisa viver. Então, arruma um emprego, e depois na hora de se dedicar à arte está tão cansado que não consegue fazê-lo. Mas quando amamos o que fazemos, encontramos um jeito de continuar fazendo. Eu sempre procurei empregos que me dessem a chance de escrever durante o expediente, nem que fosse só por alguns momentos. Sempre andava com uma caderneta no bolso e anotava cada ideia que tinha, depois selecionava as melhores para seguir em frente.      
            A escrita desse livro foi movida a desafios. Primeiramente pessoal, queria provar para mim mesmo que seria capaz de escrever uma narrativa longa e envolvente. O segundo desafio foi de uma amigo que em 2010 me disse que começar um livro era fácil o difícil seria terminá-lo. Ele estava certo, mas depois de muito empenho, consegui e estou contente com o resultado.
              Muitas pessoas me ajudaram a prosseguir ao longo da minha vida. Ainda não posso viver daquilo que escrevo, mas com persistência espero chegar lá. E mesmo que nunca consiga, jamais deixarei de escrever, pois isso me dá prazer.
            Sucesso e fracasso são questões relativas. O meu maior medo era de não escrever uma boa história. O pior que poderia acontecer era não conseguir terminar o livro. Só que isso eu consegui. Então, para mim, o livro já é um sucesso. Mesmo que ninguém mais estivesse satisfeito com o resultado final, isso não importaria, pois o livro já cumpriu a sua função. 

       Aprendi muita coisa escrevendo essa história. Agora que já estou familiarizado com os instrumentos da escrita, tenho uma visão complexa do processo pelo qual passei e tenho segurança para afirmar que será mais fácil escrever o próximo trabalho. Quanto ao fato de ter um grande público de leitores é um questão de tempo, pois sempre acreditei que um trabalho de qualidade cedo ou tarde encontrará o seu publico e será reconhecido como uma obra de arte de valor.


            Obrigado a todos os meus leitores.      

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

A Última Noite no Convento

Essa história foi lida pela primeira vez em público ontem a noite 30-12-2014, no evento Vênus em Fúria - Sarau Pornô realizado no Signos Pub, na rua Joaquim Nabuco, Porto Alegre.


"Aquela foi a maior suruba de todos os tempos vista na cidade de Rosa Cruz."

A Última Noite no Convento

Essa história é verdadeira. Ela aconteceu em maio de 1941, em uma cidadezinha pouco conhecida chamada Rosa Cruz. Tudo começou depois da queda da ponte da cidade após um grande temporal. A cidade decretou estado de emergência, e o exército foi chamado para ajudar. Porém não havia onde acomodá-los, todas as casas, igreja, escolas e qualquer outro prédio público estavam inabitáveis, ou ocupados pelos desabrigados. O prefeito interino, Perpétuo Bocaiúva, teve então a brilhante ideia de hospedar um batalhão de quarenta soldados no único lugar que não tinha sofrido nenhum dano com as chuvas: o convento Nossa Senhora da Rosa Mística.
A coordenadora do lugar, Madre Teresa Dávila, diante da calamidade, cedeu aos apelos do prefeito e após o juramento do Major Godoberto Siqueira de Almeida Neto Fagundes dos Santos Filho de que nada de errado ocorreria, ela isolou metade do prédio para que os homens pudessem pernoitar lá. A construção quadrangular com um amplo pátio interno foi adaptada para receber, excepcionalmente por uma noite, aqueles hóspedes inusitados. As freiras ficariam na ala leste e os soldados na ala oeste, a ala sul e norte foram fechadas. Era um estado de emergência e os responsáveis concordaram que seria possível controlar a situação por uma noite, mais do que isso seria muito arriscado. As freiras eram pessoas castas, mesmo assim eram humanas, não seria saudável expô-las à tamanha provação da sua castidade, deixando-as à mercê de um bando de homens musculosos. Mas aquela seria uma noite inesquecível para todos e ficaria registrada no anedotário da cidade para sempre
As luzes dos corredores foram apagadas cedo. Todas as portas foram trancadas à chave e cada uma delas revisada três vezes. As chaves foram todas entregues à madre superiora. Os soldados estavam todos ouriçados e fizeram uma aposta para ver quem seria o primeiro a transar com uma das freiras. Neto e Gouveia, os dois soldados mais malandros do batalhão, resolveram aprontar uma brincadeira com os colegas. Os dois fugiram pela janela, foram até o varal, pegaram roupas de freiras e se vestiram como elas. Eles bloquearam a saída dos quartos da madre superiora e do major. Depois encontram numa sala vazia na ala leste e começaram o show. Usando luzes, os dois projetaram sombras na parede e simularam duas freiras tendo relações sexuais. Do outro lado, um dos soldados de binóculo viu e começou a acordar os outros. Os dois malandros soltavam gemidos estridentes, enquanto encenavam a cena de sexo oral. Aos poucos, as luzes da ala masculina começaram a se acender uma a uma e logo os quatro andares, com oito janelas em cada um deles, estavam iluminados. Em todas as janelas havia homens excitados assistindo aquela cena. Os soldados já estavam ficando loucos, até que não aguentaram mais e, ali mesmo nas janelas, puxaram os membros para fora das calças e começaram a se masturbar.
Uma das freiras do outro lado ouviu a movimentação e abriu a janela para ver o que estava acontecendo. Qual não foi sua surpresa quando ela viu, na sua frente, trinta e duas janelas abertas, todas elas com homens bem dotados. A mulher quase teve um desmaio naquela hora. Sem que percebesse, ela foi contagiada por aquele ambiente de virilidade e testosterona; logo ela, que sempre fora tão casta, tão pura, tão devota, colocou a mão no seu órgão sexual — como se quisesse calar o grito que dali queria sair — e começou a se tocar também. Nessa hora, o prazer parecia ser uma das belas criações divinas e só poderia ser um engano que aquilo figurasse na lista dos pecados. Os soldados a viram e isso a deixou ainda mais disposta a pecar. Seus gemidos e as luzes acesas acordaram suas colegas de quarto. As outras freiras também abriram as janelas para ver o que se passava. Uma foi acordando a outra e logo a ala leste inteira estava desperta, havia trinta e duas janelas com as luzes acesas, cada uma delas com mais de uma freira, todas elas olhando para aquele bando de homens com suas armas expostas, manobrando com perícia e destreza seus instrumentos. Num misto de temor e tremor, todos pareciam contagiar-se com a atmosfera que tomava conta do lugar; o cheiro de sexo estava no ar e ao respirarem aquilo, era como se que todos tivessem voltado a ser crianças, naquela inocente brincadeira de ‘mostra o teu que eu mostro o meu’. As freiras começaram a se tocar e logo eram trinta e duas janelas com homens se masturbando de um lado e trinta e uma janelas com freiras se tocando castamente do outro. Algumas mais ousadas auxiliavam as mais recatadas a se despirem e ensaiavam algumas carícias puritanas. As mais pecaminosas mandavam beijos para os soldados e as mais ousadas chamavam os soldados com os dedos provocativos, para que viessem comungar daqueles corpos-santos, já ardentes de desejo.
Os soldados eram bem treinados e não podiam resistir a um pedido de ajuda. Não se importando com a idade das freiras, partiram em seu auxílio. Improvisaram cordas com os lençóis, fronhas e cobertas. Foram descendo um a um até o pátio. As freiras, como Rapunzéis pecaminosas, jogavam seus lençóis enrolados como tranças para que seus irmãos de desejo subissem aos seus aposentos. Os soldados, bravamente, iam escalando as cordas improvisadas e invadindo o território aliado; as freiras os recepcionavam calorosamente e auxiliavam os soldados a se despirem de seus uniformes suados. Os soldados, no mais autêntico espírito de comunidade cristã, compartilhavam amigavelmente suas carnes abençoadas. E naquela noite, não houve soldado que quisesse fugir da batalha, nem freira que tenha evitado pronunciar o nome de Deus em vão. ‘Ai, meu Deus!’ gritavam as irmãs, enquanto eram maculadas. Nunca antes elas haviam rezado com tanto fervor. A maioria delas estava conhecendo o que era um homem pela primeira vez e entenderam quão delicioso era o sabor do fruto proibido degustado por Adão e Eva.
No fundo, elas só seguiram as ordens da madre superior que dizia: ‘Se não tiverem escolha e tiverem que pecar, então pequem; mas pequem com convicção, pequem mesmo e depois se arrependam.’ E foi o que as freiras fizeram: pecaram. Pecaram como nunca em todas suas vidas haviam feito antes e descobriram como era gostoso ser uma pecadora. Algumas pecaram a noite inteira, era um peca para cá, peca para lá. Depois das primeiras horas pecando, os homens já estavam cansados e alguns soldados iam batendo em retirada. Enquanto os mais fracos se afastavam do campo de batalha, as irmãs disputavam heroicamente os bravos combatentes que seguiam na guerra santa. A munição dos soldados estava se esgotando antes que o desejo de todas as irmãs tivesse sido saciado. As mais insatisfeitas improvisavam com velas e candelabros uma oração particular, oravam sozinhas para apagar o fogo divino que lhes ardia as entranhas.
Entretanto, um dos guerreiros parecia invencível, era Jorjão, um negrão de quase dois metros e bem armado com uma bazuca no meio das pernas que parecia ter munição infinita. O homem era tão grande que, se ficasse de quatro, poderia ser confundido com um cavalo. Ele parecia uma metralhadora humana e atirava para todos os lados. Ele foi o último a bater em retirada. Já ao raiar do dia, depois de se vangloriar por ter combatido sozinho contra metade do exército aliado, na sua última investida, ele quase enrabou um dos malandros, que apesar de terem entrado em combate continuavam usando o uniforme feminino. Aquela foi a maior suruba de todos os tempos já vista na cidade de Rosa Cruz. A coisa ficou evidente, quando um terço das freiras apareceram grávidas nos meses seguintes. Não adiantava nem tentar alegar que tinha sido obra do espírito santo, pois os soldados orgulhosos do feito, já haviam espalhado pela cidade inteira o que havia acontecido naquela noite.

No final, a Madre foi excomungada pelo vigário, o convento foi fechado e transformado em hospital psiquiátrico. As freiras grávidas largaram o hábito e a cidade ganhou cerca de dez novas famílias. As que não se converteram ao matrimônio, viraram pecadoras profissionais. Mas uma coisa elas mantiveram em comum, a partir daquela noite e para o resto de suas vidas, todas elas adotaram um novo santo padroeiro. Elas continuaram a rezar uma oração solitária em homenagem à espada abençoada de santo Jorjão, o homem (não-padre) que mais descabaçou freiras na história da humanidade.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

PAPÉIS AVULSOS

             As vezes as palavras somem, não sei para onde elas vão. Chega uma hora que elas simplesmente desaparecem. A falta delas me angustia. As palavras somem e o álcool surge. Depois de um gole ou outro elas as vezes voltam a toa, assim como quem não quer nada. Encontro elas perdidas e levo-as para o papel. De repente me pego pensando, por onde elas andavam?

*

            Durante muito tempo vesti a máscara de Joaquim Hunts, o protagonista do meu livro Memórias Sepultadas que em breve será lançado. Fui fazendo dele as minhas palavras e passei a pensar mais com a cabeça dele do que com a minha. No final parece que ele encontrou seu rumo e eu encontrei o meu. Caminhamos que levam para lugares completamente diferentes.
            Já havia lido que chega uma hora em que os personagens ganham vida própria, mas nunca havia sentido isso antes. Não adianta mandar, eles não nos obedecem. Nessas horas temos que ouvir mais o que eles tem a nos dizer do que impor a eles o que deveriam falar. Chega um momento na escrita em que eles já sabem o que fazer e nós apenas os acompanhamos, deixando que sigam a sua busca. Os personagens vão deixando seus autores para trás impotentes e sozinhos assim como ele estava antes de começar a contar aquela história...
         Essa é hora de começar a contar uma nova história. 

domingo, 12 de outubro de 2014

Encontros Inusitados



            Porto Alegre é uma cidade relativamente pequena. Andando pela Cidade Baixa nós sempre acabamos encontrando alguém conhecido. Esses encontros geram novos encontros, pois quando estamos acompanhados acabamos apresentando amigos aos amigos que encontramos pelo caminho e a coisa vai por esse lado.
            Ontem aconteceu uma situação engraçada. Duas pessoas que já deveriam se conhecer, mas não se conheciam acabaram se encontrando.
            Uma amiga e eu estávamos de boa sentados em uma café da República esperando para fazer um pedido. A minha amiga, formada em psicologia havia acabado de sair de uma prova para seleção de mestrado e estava desolada, pois achava que tinha ido muito mal na prova de línguas. Enquanto aguardávamos a garçonete nos atender uma conhecida minha que eu já não via há muito tempo passou e me olhou com aquela cara de "eu te conheço de alguma lugar, mas não lembro bem de onde." Não precisou de mais do que alguns segundos para que lembrássemos que costumávamos nos encontrar nos meetings do Couchsurfing em 2009. Depois disso, eu saí de Porto e nunca mais nos vimos pessoalmente.
            A conversa foi tímida no início. Minha amiga elogiou o vestido da garota que havia chegado e as duas começaram a conversar. Pronto, não precisou mais do que alguns minutos para que as duas se identificassem. Eram praticamente duas almas gêmeas separadas pelo destino até aquele momento que acabavam de se encontrar. As duas são formadas em psicologia, trabalham na mesma Universidade em departamentos diferentes, conheciam as mesmas pessoas, colecionam os meus tipos de objetos, tem predileções pelos mesmos tipos de filme e tem as mesmas ideias sobre qual negócio montariam para ganhar dinheiro. Enfim, uma porção de pontos de convergência. Quantas vezes aquele encontro não foi possível, entretanto nunca se concretizou? Para completar, o namorado da garota do CS ainda era o melhor amigo do cara que havia morado um ano na casa da minha amiga.

            Saímos do café, fomos na casa dela, conhecemos o namorado, bebemos cerveja, tocamos gaita, brincamos de carrinho de controle remoto, atropelamos o boneco do Freud, trocamos dicas de fotografia, contei algumas histórias de viagem e falei sobre a vida no navio em que trabalhava. Depois algumas horas de diversão por lá, minha amiga e eu saímos para não atrapalhar ainda mais os planos daquela noite do casal. E assim, de maneira espontâneas duas pessoas com gostos tão semelhantes se reconheceram. Espero que esse tenha sido apenas o início de um boa amizade entre as duas.

sábado, 11 de outubro de 2014

Uma corrida para arejar as ideias.




            Acordei perturbado. Eu mal havia aberto os olhos e minha mãe entrou no meu quarto com uma xícara de café quente e começou a reclamar das blasfêmias que havia lido no me meu livro. Estava um pouco frustrado por não ter conseguido ir viajar aquele final de semana.
            Olhei para fora e o clima nublado não me inspirava nem um pouco a deixar o meu quarto. Resolvi tomar coragem e deixar a moleza de lado, antes que mais uma vez ela conseguisse me dominar. Botei a roupa de corrida e sai assim que terminei o café. Quando cheguei à rua ainda estava um pouco sonolento, entretanto o ar frio da rua me ajudou a despertar.
            Os passos foram arrastados no início, assim, sem muita vontade. As ruas molhadas refletiam a chuva da noite anterior. Andei em direção ao Gasômetro e comecei a correr de maneira tímida, respirando devagar e acelerando aos poucos. Depois de alguns minutos de exercício já me sentia bem melhor. Sabia que conseguiria chegar até o Estádio Beira-Rio sem parar ou me arrepender. Eis então que o sol surge para iluminar meu caminho e aquecer meu corpo. Na altura do Anfiteatro Pôr-do-Sol já me sentia revigorado e motivado para continuar a correr por um longo tempo. Enquanto isso, a poeira que as impregnava as ideias mofadas ia se dissipando. O vento suave varria a poeira da minha mente para longe, deixando ali as coisas que me faziam entender melhor minhas próprias ações. Travava diálogos imaginários com interlocutores há muito tempo não encontrados e resolvia as equações dos problemas que me afligiam ao despertar.
          Não fui viajar essa semana, mas redescobri que não há nada melhor que uma boa corrida para arejar as ideias.            

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Da série: Poesias em Alto Mar #3

CANTO À MUSA #3 

Elfa encantada de beleza nórdica
Os meus olhares procura evitar
Meus convites costuma recusar
Em nossos encontros almeja faltar
De meus toques busca se afastar
Dos meus beijos foge sem parar
Dos meus abraços tenta se esquivar
De meus elogios costuma desdenhar
Com minha sabedoria parece não se importar
Mas de minhas palavras, ah! destas terás para sempre que lembrar



Da série: Poesias em Alto Mar #2

CANTO À MUSA #2 

No teu rosto de menina vejo uma mulher
Nas tuas mãos delicadas sinto a inocência
No teu perfume respiro a fragrância floral
Nos teus passeios visita castelos proibidos
Nos teus devaneios descubro a literatura
Nos teus lábios procuro a doçura
Nos teus banhos de mar nado em liberdade
Nos teus sorrisos encontro a amizade


Da série: Poesias em Alto Mar #1

CANTO À MUSA #1

Tua simpatia contagia
Anda pela vida sonâmbula com o olhar perdido como criança
Transporta receptáculos que recebem a essência da vida
Percorre caminhos desconhecidos, sem saber onde irá chegar
De estação em estação limpa a poeira do café matinal
Fala com todos sem nunca cansar
Procura todas as noites um amigo para abraçar

sábado, 14 de setembro de 2013

Frase da semana # 12

"A história é um pesadelo do qual estou tentando acordar."
"History is a nightmare from which I am trying to awake." Stephen Dedalus character from Ulysses (episode 3), from James Joyce

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Frase da semana # 11

"Um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar." - Chico Science

sábado, 28 de abril de 2012

O FILÓSOFO E A MONTANHA.


O Rio de Janeiro é cheio de eventos. Eles ocorrem o ano todo e são os mais diversos possíveis. Esta semana, estou participando como voluntário da 1º Semana Brasileira de Montanhismo e tem sido uma experiência enriquecedora. Não sou nenhum montanhista experiente, muito menos um grande escalador, mas já tive algumas aventuras. Não cabe aqui citar todas elas.
Talvez, a título de curiosidade, a primeira delas seja interessante mencionar. Minha mãe conta que quando eu tinha cerca de dois anos de idade ela estava no trabalho e recebeu uma ligação da irmã, que tomava conta de mim dizendo que fosse para casa o mais breve possível. Quando ela chegou, eu estava no topo de um armário muito alto, com quase três metros de altura. Minha tia não podia me tirar de lá, pois ela é deficiente física e usa cadeira de rodas. Aquele foi o momento crucial em que minha mãe decidiu largar o trabalho e ir morar no interior, onde considerava mais seguro para criar o filho. Na época, nós moravámos no 11º andar em um apartamento pequeno na rua Demétio Ribeiro em Porto Alegre, o mesmo apartamento em que eu voltaria a morar anos depois.
Considero que a aventura descrita acima foi minha primeira escalada. A medida que o tempo foi passando, essas aventuras foram ficando maiores e sonhos que pareciam impossíveis começam a ficar mais próximos da realidade. No momento, ainda não tenho nenhum equipamento para a prática do esporte, mas tenho muita vontade de aprender cada vez mais sobre essa modalidade. E é a isso que venho me dedicado esta semana.
Antes de conhecer minha esposa Fiona, escalar me pareceia algo intangível. Ela se dedicou arduamente ao esporte, durante muitos anos, até sofrer um grave acidente que a afastou. Com ela, recebi minhas primeiras lições teóricas e ouvindo suas histórias fui contaminado pelo desejo de viver essas experiências. Foi ela que me deu incentivo para ir primeiro para um muro de escalada e depois para a pedra. Após esse empurrãozinho inicial, venho dando meus primeiros passos independentes para tentar progredir no esporte.
No inicio deste mês, Fiona, eu e o famoso alpinista Nigel Vardy passamos um final de semana fazendo escalaminhadas pelo Parque Nacional de Itatiaia. Tive a oportunidade de subir no Pico das Agulhas Negras, mas não cheguei a atingir o cume. Meus parceiros estavam se sentindo mal e após pegar uma série de chaminés muito escorregadias pela frente, sem ninguém para me dar segurança achei melhor voltar. A coisa mais importante na escalada é continuar vivo. Em segundo lugar não sofrer acidentes.
Para se aventurar é preciso aprender a ter responsabilidade sobre os tipos de riscos que corremos e se queremos assumi-los, ou não. Sempre tendo em mente que estamos colocando em risco, potencialmente a vida de outras pessoas também. Mesmo estando temporariamente afastado do sistema formal de ensino: as salas de aula e a Academia, permaneço matriculado, em tempo integral, na escola da vida e a busca incessante pelo conhecimento continua.
O objetivo de subir uma montanha está, então, muito ligado a uma joranda solitária e introspectiva de auto-conhecimento. Como filósofo, conhecer a mim mesmo é o objetivo máximo da minha existência, para consequentemente conhecer o mundo ao meu redor e enteragir com ele de maneira mais harmoniosa. Não sendo, obviamente nem um pouco original nesse propósito, apenas assumindo as orientações do filósofo Sócrates que, por sua vez, tomou esta máxima de uma inscrição no oráculo de Delfos dedicado ao deus Apolo.
Durante o evento desta semana tive a oportunidade de assistir a apresentação de escaladores fantásticos como: Jim Domini, Sérgio Tartari, Alexandre Portela, Colin Haley, entre outros, que relataram algumas de suas conquistas. Para mim, as coisas que esse caras já fizeram estão a anos-luz de distância das minhas modestas ambições como escaldor. Minha maior ambição pessoal é subir o Aconcágua, pois considero uma montanha emblemática na América Latina (mas não decidi ainda qual das faces). Quando estarei preparado material/físico e financeiramente para realizar este sonho, ainda não sei. Mas, com as lições que venho tomando, acho que em no máximo cinco anos essa ambição se tornará viável. Enquanto esse tempo não chega, vou ficar mandando algumas das vias nas enconstas aqui da cidade e seguir apendendo com os melhores.   

domingo, 4 de março de 2012

Relaxa e Chora




Ler o jornal quando não é revoltante, muitas vezes, acaba sendo deprimente. A política brasileira parece que estagnou definitivamente. Enquanto o PT ainda consegue criar um nome novo aqui e ali, no meio da avalanche de escândalos ministeriais do governo Dilma, no PSDB parece que não existe partido sem o Serra. Mais uma vez o clone do Mr. Burns vai concorrer a prefeitura de São Paulo.

Para quem não lembra ele foi eleito nas eleições de 2004 e apenas 15 meses depois deixou o cargo para concorrer a governador. Agora ele vai tentar mais uma vez se eleger. Mesmo eleito, se alguém acredita que ele cumprirá o mandato até o final está enganado, pois ele já demonstrou que a prefeitura é só um trampolim eleitoral para se manter na mídia.
A falta de novos nomes com soluções originais para os grandes problemas das grandes cidades demonstra a esterilidade intelectual da política brasileira e a estrutura feudal dos partidos políticos que se concentram em uma só figura "carismática". Acho essa candidatura um tino no pé. Serra estará trabalhando pra consolidar o lulismo que se propagou no poder. Pelo menos dessa vez o PT teve um pouco de bom senso e não vai botar a ministra Relaxa e Goza na disputa e escolheu o Ministro do Enem Fracassado.


É esperar para ver. Façam suas apostas. No fim quem sai perdendo como sempre é o eleitor, que convencido de que voto é igual a democracia será obrigado a escolher entre o dois candidatos ruins. Mas tenham uma certeza, vermelhos ou azuis no poder a cidade mais populosa e rica do país continuará um caos, pois a estrutura dos partidos está condenada a falta de ideias e todos optam pela manutenção do feijão com arroz para garantir o status quo. Falto coragem para ousar.

Enquanto isso, os ciclista seguem sendo atropelados e morrendo na Av. Paulista e ainda por cima são acusados pela revista de Veja de serem agressivos quando se juntam.(1) Enquanto que os veículos automotores continuam a ser agressivos individualmente pela sua própria natureza todos os dias. Mas um dos maiores veículos impressos do país precisa defender o automóvel já que a receita paga por eles constitui metade da receita da dita publicação. Ou seja, acusar os ciclistas indevidamente é um meio tendencioso deles assegurarem a própria existência e defender seus patrocinadores.



REFERÊNCIA
(1)http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/o-que-falta-para-ser-seguro-andar-de-bicicleta-em-sp

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

CARNAVAL: AFINAL, A MULTIDÃO SE JUNTA PARA QUÊ?


Já me disseram que meu método de pesquisa filosófico-antropológica acabaria me matando um dia. Enquanto esse dia não chega, eu continuo tentando entender por que as pessoas fazem o que elas fazem, pois, convenhamos, muita gente faz coisas incompreensíveis, porém antes de julgá-las o melhor a fazer é tentar entendê-las. E, se possível, fazer o que elas fazem para entendê-las intimamente.

Não quero dar um de "Freud da Humanidade" e colocar todos no divã, mas fazer algo só porque os outros fazem é ridículo. Temos que fazer algo que tenha um sentido para nós. Nem que o sentido seja criado a posteriore, mas então que pelo menos haja uma intenção.

Este ano resolvi pular Carnaval com a intensão de descobrir o que as pessoas comemoram, afinal sei muito bem no país em que vivo e tirando os recursos naturais o Brasil tem pouco a celebrar.

Após essa rápida introdução, passo agora para o relato da minha experiência durante o Carnaval carioca 2012. Comecemos pelo final, domingo 26/02/2012 (o resto no momento é irrelevante). Depois de sair do trabalho às 7h da manhã, passei em casa e fui para o centro da cidade, onde estava tocando um dos blocos mais populares o MONOBLOCO.

Inicialmente pensei que as pessoas gostassem de Carnaval pela questão sexual envolvida. As pessoas bebem, se vestem diferente, dançam, encontram um parceiro e transam. Basicamente um comportamento primitivo e animalesco da dança do acasalamento. Mas estando no meio da coisa toda, deu pra ver que há outros elemtos em jogo. Mesmo que a intenção orginal de todos (seja ela consciente ou não) envolvidos seja encontrar um parceiro sexual para a satisfação do desejo, muitos mascaram essa vontade alegando que sua única intenção é a diversão. Pois bem, a diversão a que se referem não é o prazer hedonista do álcool, nem o sexo “fácil”. Já que álcool em abundância pode ser ingerido em qualquer época do ano, nos mais variados locais.

Acho que o que faz as pessoa se reunirem, em primeiro lugar vem a vontade de fazer parte algo muito maior do que si mesmo. Um desejo de retorno ao estado primordial de anulação do seu eu. Literalmente querem se perder na multidão. É como ter uma identidade superior e abrangente, se assemelha a fazer parte de um país, ou time de futebol e ir ao estádio e depois, quando falam em brasileiros, flamenguistas, corinthianos, as pessoas sentem-se parte desse todo, que é na verdade um grande EU COLETIVO, formado por diversas singularidades anônimas.

Se viajar no metrô sentido Zona Norte do Rio de Janeiro me fez descobrir como é que uma pasta de dente se sente ao sair do tubo quando ele é comprimido, participar do MONOBLOCO me fez lembrar como era ser um espermatozoide 28 anos atrás. Obviamente eu não tive uma recordação genuina, mas as condições reproduzidas me fizeram sentir como se eu estivesse em uma reencenação do momento da concepção.

Seguir o MONOBLOCO foi uma mistura de sauna mista ao ar livre com drenagem linfática intensa. Um bando de indivíduos, meninos, meninas e o terceiro sexo, todos juntos comprimidos em um espaço apertado sendo empurrados como em uma onda incontrolável, suando sob um calor de 40 graus ao sol do meio-dia seguindo um carrinho de som tocando músicas na maior parte do tempo inaudíveis. Depois de uma hora tentando sobreviver enquanto desenvolvia alguns pensamentos eu desisti. E esse foi o tempo que levei para andar cerda de dois quarteirões apenas.

Me chamem de chato, mas eu não chamaria a experiência de diversão. A maior parte do tempo foi assustador. Se alguém caísse, certamente seria pisoteado, se houvesse briga seria espancado, se houvesse um ataque terrorista... enfim. Parece perigosa a ideia de botar tanta gente junta. Mesmo que a princípio todos ali envolvidos saibam previamente o que irá acontecer e tem a intenção de se divertir, o resultado nem sempre é condizente com o esperado. Podem achar que não me diverti porque estava sozinho, mas se estivesse com amigos ou namorada, não demoraria muito a perdê-los no meio do mar de gente. Eu não conheci ninguém legal, não beijei ninguém e mal consegui tomar uma cerveja sem me babar todo. Sem falar na chuva de cerveja que ocorria em pancadas esporádicas ao londo de todo o percurso. Eu mal ouvi as músicas que eles tocaram. Isso que eu cheguei bem perto do carro de som, o mais perto possível. Tudo isso a troco de que? De pular Carnaval no Rio. No meio de toda aquela gente, pular se transforma em é uma questão de sobrevivência.

Pareceria apenas insano, ou incompreensível que pessoas viagem quilometros de distância, façam reservas em hotéis, pousadas e albergues, durmam mal se alimente precariamente, gastem um monte de dinheiro, isso se não houvesse uma explicação.



A única conclusão que chego é que pessoas gostam de aglomerações. Seja em Tahrir Square durante a primavera árabe por questões políticas, seja nos jogos de futebol pelo amor ao esporte, seja durante os shows do Rock in Rio pela admiração a arte, seja lá onde for, as pessoas gostam de ficar se espremendo no meio de multidões por motivos distintos. Todos juntos suando e se roçando com uma finalidade em comum. Como o Brasil é um país feliz e sem problemas, as pessoas apenas se juntam para transpirar juntas. No Carnaval a multidão se junta para nada, se junta para se juntar. Se aqui fosse outro lugar, as pessoas continuariam a se juntar, mas por motivos diferentes.

Isso pode não ser nenhuma grande descoberta, mas o fato político mais marcante que isso demonstra é que as pessoas no Brasil só se reunem para fazer festa. Pois para juntar mil pessoas para protestar contra qualquer uma das muitas coisas erradas nesse país demanda um grande trabalho de persuasão. As pessoas acham perda de tempo lutar pelos seus direitos. Mas para se “divertir” todos sempre parecem ter tempo o suficiente para gastar.


Poderia me ater a falar das “maravilhas” Carnaval, mas este papel eu deixo reservado para a grande mídia, e poderia falar da alienação do Carnaval, mas este é o discurso dos esquerdistas intelectualódes.

Então fica aqui a minha singela contribuição, vamos continuar celebrando a cada Fevereiro e feriado como idiotas, pois está tudo bem. O país não tem problema algum é tudo festa. Vamos fazer do Brasil um país internacionalmente conhecido por sua alegria e tolerância. Pois aqui, para as coisas serem consideradas ruins elas têm que estar pior, muito pior do que deveria ser o tolerável.

A minha maior insatisfação com o Carnaval é essa: pra juntar meio milhão de pessoas sem motivo nenhum, é fácil, para juntar esse mesmo número de pessoas por alguma razão realmente importante é quase impossível. Se isso faz sentido para você me explique, pois pra mim não faz o menor sentido. E viva o Brasil: o país do nonsense! E ano que vem tem mais Carnaval. Só não esqueçam esse é um ano de eleições...

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Sayonará Gangsters: Um exemplo da louca literatura japonesa contemporânea.


Sayonará Gangsters de Genichiro Takahashi é uma história despretensiosa. Nas primeiras palavras começamos a ser conduzidos por um obra que não sabemos onde nos levará. A narrativa inventiva e criativa, vai nos conduzindo com sua naturalidade ao absurdo, como se vivêssemos dentro dos sonhos de alguém. Podemos dizer que o livro não possui diversos méritos, entretanto é impossível mesmo para a mente perspicaz do mais exímios enxadrista da atualidade considerar os movimentos da história previsíveis.


O título Sayonará Gangsters é o nome do personagem principal. Quem deu a ele esse nome foi sua namorada Song Book de Miyuki Nakajima. Eles vivem em uma época em que as pessoas não recebem mais nomes colocados pelos pais quando nascem, e elas também já não se autonomeiam mais como antes. Agora são os amantes dão nomes uns aos outros.


Song Book durante muito tempo viveu com um gângster. Agora ela não quer mais ser um gângster. Sayonará Gangster é professor numa escola de poesia. Ele escreve poesia, para ele "escrever poesia é algo patológico". Ele tem alunos de todos os tipos vindos do universo inteiros. Entre eles estão a senhora com o MONSTRO DE GILA, gêmeos quíntuplos indistinguíveis, uma colegial (cujo pai, a mãe, e os avós são psicanalistas) que recebe estranhas ligações de um homem (que não passam de ilusões criadas pelo seu desejo sexual), um astrônomo, um refrigerador que é a reencarnação do poeta Virgílio, a coisa Incompreensível, um jupteriano (com novas definições de tempo, morte e gênero), um espião da CIA, infiltrado na KGB que namora uma espiã da KGB infiltrada na CIA.


Todos tem em comum a vontade de serem poetas. Mas a poesia não é uma ciência exata e as lições que se deve aprender para exercer esta arte são personalizadas e cada aluno precisa ouvir algo diferente. Cabe ao professor problematizar o processo muito mais do que apresentar soluções. Só que as aulas se concentra na segunda parte do livro. Esqueci de mencionar algo importante. Um vampiro mora na sala ao lado. Mas quem tem medo de vampiros?

A primeira parte nos apresenta o personagem principal e seu envolvimento com a nova namorada. Eles tem um gato, Henrique IV. O gato do casal tem muita personalidade e gosta de ler o jornal todas as manhã.


O casal tem uma filha, após a gravidez relâmpago de Song Book que durou um dia. O bebê pula para fora da barriga e em poucas horas já está falando. O nome dela é Caraway para ele e Mindinho Verde para ela. Após um período divertido em que o casal passa junto com a nova menininha, eles recebem uma carta da prefeitura, pela manhã, avisando que naquela mesma noite, a criança iria morrer. É assim que as coisas funcionam nessa realidade e com a menina morta Sayonará Gangster parte para o cemitério que lembra mais uma loja de departamentos onde são depositados os corpos.

Na terceira e última parte os antigos compassas de Song Book retornam para buscá-la e durante muitas páginas vemos correr um rio de sangue até o catastrófico e revelador final.


No final do livro Henrique IV muda e que muito um ler um livro de contos de Thomas Mann.

A história parece completamente despretensiosa, a primeira vista, mas convida o leitor a aceitar como natural os maiores absurdos.

Os capítulos são curtíssimos, alguns com uma linha, ou com uma frase. A leitura é o mais fácil possível. E os estranhamentos desaparecem a medida em que nos sentimos confortáveis num ambiente nos todas as contradições são permitidas e onde as barreiras da lógica foram rompidas. Uma boa leitura para que quiser tirar férias de literatura convencional e se deleitar com um livro original e em alguns momentos com ideias muito delicadas.

As três melhores frases do livro para mim são:

“Todos aqueles que durante longo tempo experimenta dificuldades na vida acaba se tornando malévolo.”

“Quando começarem a fazer celas de tamanhos diferentes, não conseguiremos mais distinguir prisioneiros de guardas.”

“É enfadonho ter um único nome.”

Seguindo os passos de Machado de Assis


Machado de Assis é um dos meus atuais objetos de estudo. Acabo de ler a Biografia Machado de Assis: um gênio brasileiro do jornalista Daniel Piza. Achei-a excelente. Gostei do ritmo ágil e moderno com que o livro foi escrito, e apreciei a clareza com que os fatos são apresentados. Muitas vezes, o que ocorre nas biografias é que elas abandonam o personagem retratado – depois de uma breve contextualização da época ao qual ele está inserido – solto no tempo. Neste caso, Piza faz uma introdução satisfatória sobre as mudanças de cada época e apresenta a forma com que elas influenciaram na escrita de Machado, principalmente em relação as crônicas que foi o gênero literário em que o autor certamente foi mais prolífico.

O texto não chega a ser tão específico sobre a intimidade de Machado a ponto de nos dizer as cores das cuecas que ele usava ou o que ele comia no café da manhã, até porque ele era uma pessoa reservada (mas estas são ordinariedades que a ninguém mais interessam, apenas a um pesquisador obcecadamente detalhista como eu). Tais miudezas, talvez seja inacessíveis se tratando de Machado, um pessoa que sempre manteve sua privacidade resguardada. Dessa leitura, além de Machado como grande cronista, o que emerge para mim é o sofrimento do autor por causa dos problemas de saúde; os ataques epiléticos constantes, as dores no estômago por causa dos remédios fortes e as inflamações na visão, forma problemas que o impediam de trabalhar por grandes períodos. Mesmo assim ele sempre manteve uma produção vasta, publicando em média um livro a cada dois ano, entre romances, contos, poesias, peças de teatro e traduções (sem falar nas crônicas semanais publicadas em jornais).

Machado era um abolicionista, mas monarquista. Ele era um cético. Não tinha o otimismo ingênuo de crer que a mudança das pessoas no comando alteraria a índole dos políticos. Machado considerava o país imaturo e sem uma tradição para virar uma democracia. Mesmo tratando de temas relevantes para a política nacional em suas crônicas, Machado parece abster-se de um posicionamento mais rígido entre um lado e outro de algumas questões. Não faz uma campanha para as melhores condições dos escravos libertos, não escreveu uma linha sobre a Revolta da Armada e na Guerra do Paraguai adota uma postura nacionalista e ufanista. Machado não ignorava alguns dos graves problemas nacionais, mas preferia comentar como se estivesse observando tudo de fora, ou fingindo que o problema não existia. Nesse sentido Ângelo Agostini da Revista Ilustrada era muito mais combativo e engajado no debate sobre a luta por transformações políticas e sociais. Acho que por ser um funcionário público, ele evitava fazer inimizades ou críticas severas que angariassem prejuízos para sua vida pessoal. Se ter consciência de um problema grave e ignorá-lo propositalmente para não se incomodar é um pecado, podemos eleger a omissão com um dos defeitos machadianos. Não uma falha enquanto autor, ou literato, mas uma falha enquanto humano que compactua com atrocidades sem levantar sua voz de maneira firme e incisiva contra elas.

Por causa dos problemas de saúde, por covardia, ou para fazer um tributo ao filósofo Sócrates, Machado jamais afastou-se do Rio de Janeiro. Assim como o sábio grego nunca deixou Atenas, e até preferiu a morte ao invés de abandonar sua cidade, o ilustre morador do Cosme Velho, salvo raras exceções, quase nunca se afastou da capital do Império. Ele passou temporadas em Friburgo, Petrópolis e Barbacena, em geral para se recuperar dos problemas de saúde. Todos destinos como um raio de distância inferior a 300 Km de distância. Esta falta de visão do mundo exterior através dos próprios olhos, davam-lhe certo provincianismo existencial, mas não intelectual. Pois ele lia os jornais franceses, traduzia os melhores literatos do francês e do inglês, estudava grego, enfim, era um homem da cultura. Viajava através do pensamento para o passado distante e vivia as aventuras de seu tempo através da vida dos personagens da literatura universal.


Talvez, meus leitores pensem que estou sendo muito severo em minhas observações, mas estou mais interessado na psicologia do homem, do que na manutenção do mito, ou na revelação da identidade do autor, por isso dou-me a liberdade de fazer algumas suposições extravagantes.

Uma das viagens de Machado teve um significado particular, quando partiu em 1880 para Nova Friburgo, ele sentia-se quase morto quando. Ele já não mais percebia-se parte do mundo dos vivos. Foi assim, de tal estado psiquico, que nasceu a grande virada na sua obra e surgiu Brás Cubas. No mesmo período de intenso sofrimento, foi também redigido O Alienista, um dos seus contos mais celebres. Machado prova sua genialidade ao supera um período de grave dificuldade física do qual emergiu, após intenso sofrimento, com duas sensacionais obras de arte. Peças da literatura nacional que continua a ser lidas, referidas e estudadas como marcas na mudança dos rumos das letras no país.

Na primeira, o autor personagem Brás Cubas vai traçando o próprio perfil, e Machado nos apresenta um homem que pode falar sem papas na língua por ter a liberdade que só a morte permite. Na segunda, uma verdadeiro estudo sobre a loucura e uma crítica a ciência dogmática são expostos através da exposição dos experimentos do alienista Simão Bacamarte.

Não perderei meu tempo como comentários longos sobre esta duas obras muito bem conhecidas, nem tampouco falarei da ironia de machadiana, um lugar tão comum na análise literária que parece já não haver mais nada ser dito sobre este ponto. Também não perguntarei mais uma vez a eterna dúvida: “Capitu traiu, ou não traiu Bentinho?”. Menterei-me na superficialidade nos comentários desavergonados. Apenas destaco que a biografia não me esclareceu a origem do apelido Bruxo do Cosme Velho, que pelo que saiba foi uma atribuição póstuma que partiu de Carlos Drummond de Andrade, por razões que ainda me inquietam.


A presente biografia também não menciona em nenhum momento as especulações sensacionalistas que recentemente foram defendidas por um pesquisador, segundo a qual, Mário de Alencar, filho de José de Alencar, seria na verdade filho de uma relação extraconjugal de Machado de Assis com a esposa de Alencar. Em consequência de tal hipótese, o autor de tais suposições afirma que o romance Dom Casmurro teria traços biográficos relacionados ao adultério cometido por Machado de Assis.


Se o tal apelido tem alguma magia escondida, ou se as fofocas das más línguas de outrora tem eco no presente, isto no quadro geral, pouco acrescenta ao monumento que Machado representa na literatura nacional.


REFERÊNCIA

PIZA, Daniel. Machado de Assis: um gênio brasileiro. Ed. 2º. São Paulo: Imprensa Oficial SP, 2006. Número de páginas: 416

Para maiores informações, leia o texto do jornalista Daniel Piza, autor da supracitada biografia, onde ele deleuzianamente faz a desconstrução de alguns mitos machadianos.

http://blogs.estadao.com.br/daniel-piza/mitos-machadianos/

domingo, 27 de novembro de 2011

Neverwhere de Neil Gaiman: uma fantasia urbana.


Neverwhere de Neil Gaiman: uma fantasia urbana

Tornei-me admirador da obra de Gaiman após ler algumas edições de Sandman. Esta semana terminei de ler o seu livro Neverwhere. Nele, todo um universo, com seus personagens, intrigas, perigos e existe em uma Londres alternativa abaixo da superfície. Em Londres Subterrânea (London Below), moradores de rua e outros habitantes tem uma sociedade completamente a parte do mundo da superfície, sem que sejam percebidos pelas pessoas de cima. Os ratos são os mensageiros desse mundo, eles caminham pelos túneis imundos dos esgotos levando e trazendo mensagens para as pessoas que conseguem se comunicar com eles.

Os cenários descritos são fascinantes e amedrontadores. Um dos lugares mais interessantes para se visitar em London Below é o Mercado Flutuante (Floatig Market). Uma espécie de feira itinerante que todo semana muda de endereço. Podendo aparecer nos lugares mais inusitados como em Westminster Abbey, em Harrods, a loja de departamento mais cara e famosa de Londres (equivalente a Das Lú no Brasil.) ou no navio de guerra Belfast no meio do rio Thames. Dentro do mercado, há um pacto entre os grupos, portanto crimes não podem ser cometidos lá dentro, mas as pontes que levam até lá são os lugares mais perigosos que existem. As descrições dos subterrâneos são atmosféricas, as riquezas de detalhes que compõe o mercado flutuante fazem com que nós sentíamos gostos e cheiros inusitados à medida que a leitura progride.

Uma das curiosidades dessa obra é a maneira como Gaiman cria uma personalidade para estações de trem e outros lugares. Nomes dados a mais de duzentos anos já perderam o significado, e resgatando essa história perdida ele transforma uma estação em uma personalidade e explora dessa foram a psique de um parte da cidade. Islington, Old Bailey, Black Friars, Earl’s Court, entre outros ganham vida. Uma estação que tem um nome curioso, mas que só é citada no livro sem ter relevância é a Castelo e Elefante (Elephant & Castle). Mas acho que uma boa historio poderia se passar lá só para explicar como um elefante foi parar em castelo no sul de Londres.

(imagem dos personagens Door, Hunter e Richard na serie de TV)

Na história nos acompanhamos a jornada de Richard Mayhew and Lady Door. Richard é um escocês vivendo em Londres. Ele é realmente uma pessoa ordinária, tem uma vida mundana, um emprego monótono e uma namorada chata e irritante, que o faz passar horas andando por todos os museus da cidade. Enfim uma cara normal. A vida de Richard muda de rumo quando em uma noite ele encontra Door machucada e caída na rua. Ao ajudá-la Richard é tragado de maneira inescapável para um mundo diferente. Ela, como seu nome deixa claro, é um portal para a Londres Below. O novo mundo ao qual Richard passa a fazer parte é perigoso, sujo e assustador, com assassinos imortais, anjos malignos, criaturas geladas que sugam o calor de sua vida com um beijo, monges medievais, uma corte de uma rei decadente e uma besta que se esconde na neblina.

Primeiro todos que ele conhecia se esquecem da sua existência. Da noite para o dia ele perde o emprego, outras pessoas passam a morar na sua casa, a namorada termina o relacionamento, e nenhuma pessoa parece perceber a existência de Richard em Lodon Above. Ele procura Door para entender o que aconteceu com sua vida e quer ajuda para obtê-la de volta.

Durante a jornada outros personagens juntam-se ao grupo e eles passam a investigar quem está tentando matar toda a família de Door. Hunter é a guerreira do grupo, ela foi contratada como a guarda-costas de Door, Marquês de Carabas com seu sorriso sedutor cuida da parte diplomática, ele sempre sabe aonde ir, com quem falar e como negociar. Richard é o cara perdido que seguimos dentro desse mundo misterioso e fantástico, a medida em que ele vai entendendo como as coisa funcionam no underground nós também vamos.

Durante todo o tempo eles são perseguidos pelos perigosos assassinos Mr. Croup and Mr.Vandermar (que lembra uma outra dupla de criminosos muito eloquentes de Sin City de Frank Miller). No começo, a história é narrada de uma maneira divertida, pelo lado patético do personagem principal, como Richard sendo xingado e ignorado por todos. Mas a media que a narrativa progride podemos sentir o drama que seria desaparecer para a sociedade, não ser um ninguém e passamos pela sensação da perda de identidade social. Isso obriga o personagem a criar uma nova identidade, pois ele naquele novo mundo ainda não é nada e no mundo antigo ele deixou de ser o que era até aquele momento.

Richard não abraça bem a idea de ser alguém novo e luta o tempo todo para recuperar a identidade perdida ao invés de construir uma nova. O final do livro depois do clímax e dos tradicionais reviravoltas no roteiro caminha para seu derradeiro e previsível final.

A leitura é fácil e recomendo a todos que queira uma pouco de fantasia gótica em suas vidas.

(Imgens da adaptação para os quadrinhos)

SPOILER. Após finalmente conseguir voltar para casa Richard sente que não pertence mais aquela vida e almeja voltar para London Below, mas não sabe como fazer isso. Dentre as coisa que para mim ficaram sem explicação está a morte e ressurreição de Marques de Carabas. Ele sobreviveu a uma decapitação. Obviamente ele é uma criatura mágica, mas de qual tipo não compreendi. A traição de Hunter me surpreendeu, pois pensei que Carabas era o traidor. No final Hunter morre e Richard torna-se o guerreiro do grupo após matar a besta usando a faca que pertencia a Hunter. E o romance entre ele e Door não acontece, mas o clima entre os dois permanece por toda a trajetória. Mesmo no final quando ela insiste para que eles fiquem juntos Richard decide partir.

http://en.wikipedia.org/wiki/Neverwhere_(novel)

http://en.wikipedia.org/wiki/Neverwhere